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9 razões para ler “1984” ainda hoje

CIMG2675Principal romance do escritor inglês George Orwell, “1984” fala da remota possibilidade de sobrevivência da alma humana numa sociedade dominada pelo totalitarismo

1 – “1984” é o livro mais famoso do escritor inglês George Orwell, que não foi registrado como George Orwell – o nome dele era Eric Arthur Blair. E ele também não nasceu na Inglaterra, e sim na Índia britânica, já que seu pai trabalhava num departamento do governo inglês instalado na Índia (o escritor tinha 1 ano de idade quando se mudou para a Inglaterra com a família). O livro já foi chamado de “romance definitivo do século 20”.

2 – O livro “1984” é narrado num hipotético futuro sombrio após uma guerra avassaladora entre as nações. O personagem principal, Winston Smith, é um funcionário do partido que detém o poder. Ele vive numa sociedade massacrada por um governo totalitário. Em 1948, quando escreveu o livro, Orwell imaginou que a civilização poderia migrar para o cenário de terror que ele construiu em “1984”. Publicado em 1949, o livro já foi traduzido para 65 idiomas. Dez milhões de exemplares foram vendidos em todo o mundo.

3 – Embora tenha sido escrito há quase 70 anos, “1984” continua atual. O motivo: as ditaduras ainda são uma realidade em pleno 2015. A repressão e a violência também são os pilares de muitas organizações sociais, como o Estado Islâmico. George Orwell elegeu três grandes inspirações para produzir “1984”: a Espanha fascista de Franco, a Alemanha nazista de Hitler e a União Soviética comunista de Stalin.

4 – Outro motivo que torna “1984” atual é prática de espionagem, nada incomum nos dias de hoje. É sabido que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, por exemplo, monitora informações telefônicas e dados trocados via internet de milhões de pessoas em todo o mundo. No livro, as casas das pessoas são fiscalizadas por aparelhos de TV.

5 – George Orwell escreveu “1984” numa fazenda afastada da Escócia, emprestada por um amigo. Ele vivia um inferno pessoal: tinha acabado de ficar viúvo e sofria de problemas respiratórios. Na fazenda, acabou contraindo tuberculose e chegou a datilografar o romance da própria cama, profundamente debilitado. Funcionou, porque o romance exala essa atmosfera de desespero e de intensidade que pontuou a produção da obra.

6 – É possível acompanhar um resquício de “1984” na TV. O programa Big Brother tem esse nome em referência à mítica figura do supremo governante de “1984”: Big Brother, ou Grande Irmão. No livro, ele é apresentado como uma entidade onipresente e onipotente, que acompanha todos os passos de seus governados e pune com atrocidade qualquer tentativa de subversão. Mas é provável que Orwell não ficasse muito satisfeito com a apropriação da sua criação por um programa como BBB…

7 – “1984” não teria esse nome originalmente. O autor pensou em “O Último Homem da Europa”. Orwell chamou o funcionário do partido de “último homem”, porque o personagem ainda apresentava um lastro de humanidade, já que detinha uma reserva de pulsões e sentimentos humanos como o amor, a compaixão, a inquietude, o desejo e o espírito crítico.

8 – Orwell considerava “1984” um “livro sangrento”. Há uma razão para isso: no romance, o personagem principal é submetido a uma maratona excruciante de torturas físicas e psicológicas quando, ao se apaixonar e encorajado por esse sentimento, decide questionar a autoridade do governo totalitário. Não é um livro fácil nem rápido de esquecer. Algumas cenas grudam na memória e levam o leitor a pensar nos próprios medos, e também a experimentar empatia por Winston Smith.

9 – O livro vale muito a leitura, porque, de fato, é uma obra-prima. O desenvolvimento do argumento serve até hoje para ilustrar as consequências do autoritarismo e da privação à liberdade humana. Por isso, é chamado de “romance distópico”. “‘1984” gerou um filme homônimo, estrelado por John Hurt  e Richard Burton, e lançado em 1984. Há ainda uma versão cinematográfica anterior, datada de 1956.

(Imagem: obra Exclusión, de Pablo Suárez, no Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires – Malba. Foto de Fernanda Villas Bôas)

 

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10 razões para começar a ler Machado a partir de hoje!

 

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1 – Ele é considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos. O fato de ter morrido em 1908, ou seja, há mais de 100 anos, não envelhece sua obra. Por um motivo simples: Machado ultrapassa seu tempo. É considerado um gênio e, como todos os gênios, é imortal.

2 – Se você quiser começar a ler Machado, precisa fazer a travessia. O que significa isso? Significa que você deve mergulhar na santíssima trindade do seu legado: “Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba”. “Dom Casmurro”, inclusive, figura entre um dos principais romances já lançados em língua portuguesa. É literatura de ponta!

3 – Quase todo mundo já ouviu falar de Dom Casmurro. Lançado em 1899, esse romance joga luz sobre um suposto triângulo amoroso formado por Bentinho, sua mulher Capitu e o amigo dele, Escobar. O livro não deixa claro se houve ou não traição conjugal, embora o filho de Bentinho e Capitu seja escandalosamente parecido com Escobar. Mais importante do que desvendar a possibilidade da infidelidade é assumir essa dúvida junto com Bentinho: afinal de contas, quem é essa enigmática mulher?

4 – Embora Dom Casmurro esteja centrado na trajetória de Bentinho (casmurro significa uma pessoa com expressão fechada: o próprio protagonista, que é um homem caladão, de mal com a vida), a estrela do romance é Capitu e seus “olhos de ressaca”. Essa ressaca não é o estado que se segue a uma embriaguez. O termo se refere à fúria do mar, e também aos seus mistérios. Machado quis dizer que Capitu tinha olhos insondáveis, olhos devoradores, olhos mortais (uau!).

5 – “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de 1881, é um livro marcado pela originalidade e pelo emprego delicioso da ironia: o narrador é o próprio Brás Cubas, que decide contar suas desventuras depois da sua morte – romances desfeitos, insucessos profissionais, perdas, vazios, desencontros. O livro marca o início do realismo no Brasil. Esse gênero é caracterizado por denúncias sociais. Os escritores realistas atacam a miséria, a exploração, a corrupção e o preconceito.

6 – O carioca Machado de Assis foi muito influenciado por Gustave Flaubert, escritor francês, cuja obra, Madame Bovary, é considerada um marco da literatura realista mundial. Os autores realistas estão focados no mundo das ideias objetivas. Não quer dizer que eles se afastam das emoções, mas sim que conseguem contextualizá-las, situando os sentimentos dos personagens diante dos desencantos do mundo e das contradições do outro. É isso o que torna suas obras tão contemporâneas e saborosas.

7 – Os críticos literários dizem que Machado de Assis pode ser comparado a Dante, Shakespeare, Cervantes e Camões em envergadura literária. Ele só não é mais conhecido mundialmente, porque escreveu em língua portuguesa, um idioma mais restrito do que, por exemplo, o espanhol.

8 – Nascido em 1839, Machado de Assis foi um escritor incansável: produziu nove romances, 200 contos, 10 peças de teatro, cinco coletâneas de poemas e milhares (você leu milhares!) de crônicas e críticas. Era um operário da palavra, que ajudou a fundar a Academia Brasileira de Letras. Nasceu pobre e anônimo, mas morreu como o maior escritor brasileiro, um título que o acompanha até hoje.

9 – Machado é gente como a gente. Ele tropeçou, sim, na estrada, uma vez que sua obra não nasceu pronta. Por isso, precisou ralar para produzir algo tão cheio de força literária como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Seus livros “Helena” e “Iaiá Garcia”, ainda que tenham qualidade, são considerados mais inofensivos e previsíveis do que suas obras posteriores

10 – Os críticos afirmam que a principal contribuição de Machado de Assis à literatura brasileira é a construção cirúrgica dos seus personagens. São pessoas de carne e osso, e não heróis idealizados. Homens e mulheres que erram, fingem, hesitam,sucumbem, desapontam. Perceber esses desenganos na condição de leitor – e como é gostosa essa descoberta! – é a grande sacada de Machado, e talvez seu principal presente para as gerações futuras.

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A memória que se encerra em nosso peito juvenil (mas nem tanto!)

Numa tarde comum, você caminha a passos mornos quando, a três metros de distância, uma figura com quem você divide a calçada se aproxima com um meio sorriso nos lábios, os olhos fixos nos seus, uma expressão de xeque-mate na face, como se estudasse seu rosto por breves segundos para ter uma certeza definitiva sobre algo que escapa completamente dos seus domínios. Então, de repente, a figura abre o sorrisão e diz:
– Fernanda!!!!!
(Ou Joana, Marcela, Rosaura, Adriana, Lidiane, Daniela – seja lá qual for o seu nome).
Você olha a pessoa com atenção e nenhum alarme dos seus neurônios é acionado. Se concentra mais um pouco, cerrando os olhos e franzindo a testa – e nada. Pede ao seu santo de devoção que ilumine seus caminhos, mas a escuridão permanece. Você continua andando a passos mornos, quando constata, cinco segundos depois, que não há mais tempo para consultar seus arquivos pessoais: a figura já está próxima demais e vai querer dar um abraço. E vai perguntar da sua mãe. E vai lhe falar da dela. E vai perguntar do seu trabalho. E vai lhe contar do dela. E você, em total desespero, não terá a menor ideia de quem ela é.
Isso já me aconteceu. E não uma vez só – foram várias. Me lembro da mulher desconhecida que perguntou da minha mãe, da minha irmã e da minha filha, de uma única vez, pronunciando, sílaba por sílaba, os nomes das três e ainda relembrando passagens que estranhamente nos envolviam, embora eu jurasse que jamais a tivesse visto. Por um momento, tive a impressão de que ela falava tudo com uma alegria meio assassina, observando com sarcasmo a minha ruína. Sim, aquela mulher saboreava o meu fim: um privilégio meu, membro honorário da sofrida classe dos desmemoriados.
Tem gente que adora se gabar: “tenho ótima memória fotográfica, jamais esqueço um rosto!”. Outros não têm tanto espaço de memória visual, mas dão um show no quesito nomes. Lembram-se de todos: dos nomes dos amigos da infância, dos primos dos amigos, dos parentes dos vizinhos, dos ex-colegas de alguma coisa (da escola, do inglês, do piano, do clube, do futebol, da natação, da igreja, da pracinha). Outros chegam a ser ostensivos: lembram-se dos nomes, dos sobrenomes e dos apelidos de todos os brasileiros vivos.
Preciso confessar: não tenho memória fotográfica muito boa, nem qualquer outra qualificação nesse sentido. Sou um fiasco quando encontro, acidentalmente, um velho conhecido, a quem devo ter proporcionado alguma alegria no passado – do contrário, ele fingiria que não me viu e o mundo seguiria seu curso, já que eu não me recordaria da sua passagem pela minha vida. E não se trata de descaso, absolutamente. Com algumas exceções, as pessoas, cujos nomes não me recordo mais, trazem às minhas esburacadas lembranças uma gostosa atmosfera de nostalgia. Se eu me esqueço dos seus nomes, é um problema de fosfato ou insensatez meu, não tem nada a ver com elas.
É trágica essa minha demência precoce. Talvez, por trabalhar na área de comunicação, eu esteja mais sujeita a esse tipo de risco, não sei. O fato é que já enfrentei saias justíssimas e, em algumas, me dei muito mal. Uma vez, confundi um ex-colega de trabalho com outro ex-colega. Devo ter sofrido uma pane cerebral, já que os dois não têm nada em comum, exceto o fato de serem jornalistas. Eles não se parecem nem têm nomes semelhantes. Não são amigos nem jamais trabalharam juntos: conheci, cada um, numa época diferente. Quando o conhecido mais antigo veio me cumprimentar numa festa, eu não apenas o chamei pelo nome do outro, como também trouxe à tona histórias que pertenciam ao segundo ex-colega. Claro que ele se aborreceu com a minha suposta falta de sensibilidade. Claro que lamento profundamente o episódio. E é claro que, até hoje, os amigos que presenciaram a cena patética adoram relembrá-la. Tudo bem, já estou acostumada.

“O Grito”, de Edvard Munch, de 1863, é a síntese do meu desespero existencial diante da minha memória esburacada =(

Perfume de Woodstock – Falar sobre a memória é passar a vida a limpo. Principalmente, porque a memória, em grande parte dos casos, é inexplicável e ilógica. Pense bem: quantas vezes você já se esqueceu de fatos atualíssimos, detalhes que, até na semana passada, tiveram espaço de destaque na sua agenda? Por outro lado, acontecimentos que deveriam estar no sótão das suas recordações, dentro de uma velha caixa de madeira empoeirada, misteriosamente, nunca envelhecem.
Até hoje, me lembro do gosto da merenda servida na cantina da escola onde eu estudava quando era menina (merenda é uma palavra tão antiga como essa lembrança, acredite). Tinha um gosto doce, quente e acolhedor, que quebrava a rigidez das manhãs frias e nos dava forças para enfrentar o segundo tempo até o horário da saída, lá pelo meio-dia.
Também me lembro de um perfume de patchuli que me ajudou a entrar na adolescência: era um cheiro de mato do Festival de Woodstock misturado com comida macrobiótica e incensos indianos sortidos. São detalhes muito subjetivos, mas que se instalaram na minha memória para sempre.
Acesse sua memória pessoal e veja se consegue se lembrar do cheiro do cabelo do seu primeiro namorado; do gosto do batom que você roubava da bolsa da sua irmã; da cor de uma bata que você amava quando tinha 15 anos – e até hoje se pergunta como alguém pode ter permitido que você usasse blusa verde-limão com cinto abóbora, mas essa é uma outra história.
Acho que esses “recuerdos” subjetivos são senhas de acesso para mergulhos profundos em épocas muito boas de nossas vidas. A merenda e o perfume, por exemplo, carregam na bagagem grandes conquistas, homéricos fracassos e sentimentos potentes, numa época em que nem se sabia direito definir o teor e o impacto de uma forte emoção. Penso que essas lembranças devem servir para nos chacoalhar. Quantas vezes a gente deixa a vida no piloto automático e se esquece de rever as rotas, assumir as manobras e conferir o nível da pressão na cabine, ou seja, no nosso coração? Boas lembranças, realmente, nos acordam para a vida. E os micos que pagamos pela falta de memória também devem ter alguma utilidade nesse mundo, vasto mundo, creio eu. Se você descobrir qual é, por favor, NÃO me escreva contando.

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Os dois anjos de Marilda

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Por Fernanda Villas Bôas

Conheço Drummond desde a infância. Nas minhas mãos, caíram quase todas as edições de “Para Gostar de Ler”, as deliciosas antologias da Editora Ática, que reuniam, num único balaio, Drummond, Fernando Sabino, Rubem Braga e o magnífico (e ainda menos reconhecido do que deveria) Paulo Mendes Campos.
Drummond foi quem ajudou a notabilizar a nova crônica como gênero no Brasil dos anos 30, embora essa modalidade tenha se popularizado com a transformação do jornal no que ele viria a se tornar: um documento do cotidiano.
A crônica serviu para sacramentar o olhar de prosadores da vida urbana. Vida, muitas vezes, confusa, quase sempre caótica, mas continuamente passível de uma espécie de consagração do encontro.
Se, há 180 anos, a crônica revelava um caráter argumentativo, tornou-se mais ligeira, leve e divertida. Virou uma pequena literatura que flerta com o significado da poesia e é irresistível para leitores inveterados como eu.

Cronista, poeta e contista – Conheci Drummond cronista na infância. Depois, me aproximei do poeta e descobri o contista. Me apaixonei por todos. Uma vez, em Marília, fui a uma exposição e pude ler suas reportagens – sim, ele também trabalhou como repórter de jornal.
Hoje, trago Drummond contista num livro cheio de encanto: “Contos Plausíveis” (Record, 2002). São contos engraçados, absurdos, líricos, que tratam de relações íntimas, desejos inconfessos, uma verdadeira cruzada humana em busca do sonho e da vida reinventada, como bem recomendou Cecília Meireles. Há o moço que vira pombo; há espelhos falantes; há baleias que telefonam para o ministério da pesca. Também há o homem de duas sombras; e há o dia em que choveu leite.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), o escritor que gostava de comer chocolate e de folhear livros ilustrados, cria pequenas histórias de fantasia e de arrebatamento. Toca nossa alma naquele ponto mais fundo. E permanece lá.

EXCESSO DE COMPANHIA (Carlos Drummond de Andrade)

Os anjos cercavam Marilda, um de cada lado, porque Marilda ao nascer ganhou dois anjos da guarda.
Em vez de ajudar, atrapalhou. Um anjo queria levar Marilda a festas, o outro à natureza. Brigavam entre si, e a moça não sabia a qual deles obedecer. Queria agradar aos dois, e acabava se indispondo com ambos.

Tocou-os de casa. Ficou sozinha, sem apoio espiritual mas também sem confusão. Os dois vieram procurá-la, arrependidos, pedindo desculpas.

― Só aceito um de cada vez. Passa uns tempos comigo, depois mando embora, e o outro fica no lugar. Dois anjos ao mesmo tempo é demais.

Agora Marilda é o anjo da guarda dos seus anjos, um de cada vez.


Imagem que ilustra esse post: Carlos Drummmond de Andrade. Uma vez lhe perguntaram: “- Em que você se baseia para escrever suas histórias?”. E ele respondeu assim: “- Nas coisas que imagino”.

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O homem que sabia javanês

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Por Fernanda Villas Bôas

Em 1911, o escritor Lima Barreto escreveu o conto O Homem que Sabia Javanês para o jornal carioca Gazeta da Tarde. Republicado na segunda parte do volume Clara dos Anjos, esse conto tem mais de 100 anos – e não é que continua atual?
Vai aí um resumo: Castelo é um migrante aventureiro, que chega ao Rio de Janeiro sem nenhum tostão e com poucas perspectivas de prosperar num emprego formal. Um dia, lê no jornal o seguinte anúncio: “Precisa-se de um professor de língua javanesa”. E antevê sua salvação.
Castelo corre à Biblioteca Nacional para conhecer o alfabeto da ilha de Java. Copia as letras, reproduz as pronúncias e consegue decorar o ABC naquela mesma noite. Na manhã seguinte, responde ao anúncio e é contratado como professor de javanês pelo barão de Jacuecanga na condição de único candidato ao trabalho. O tal barão tem interesse em aprender javanês para ler um livro escrito nesse idioma. O livro é uma relíquia preciosa de família, confiada a ele pelo avô no leito de morte.
O falso professor começa a lecionar. Apresenta as letras, cria estruturas ortográficas rudimentares, mas o barão aprende e desaprende com a mesma rapidez. Então, contenta-se em ouvir as histórias fantásticas do livro em javanês que Castelo, evidentemente, passa a inventar todos os dias.
A desenvoltura com a língua rara e exótica abre muitas portas ao homem que sabia javanês. Ele é respeitado, invejado, apontado nas ruas. Acaba seguindo carreira diplomática graças aos seus vastos conhecimentos (!!!). Viaja pelo mundo, ganha dinheiro e vira amigo do presidente da República. É, enfim, um homem realizado.
Escoras sabichonas – Arrebentar com as “escoras sabichonas” (o termo é de Lima Barreto). Foi para elas que o escritor destinou esse conto. Ele queria criticar a elite econômica, que tinha poder de decisão e trânsito político, mas era estúpida, hipócrita e prepotente. Hoje, parte dessa elite ainda passeia pela política e, como Castelo, finge que sabe javanês
O homem do conto também pode definir outro tipo humano: os malas. São aqueles que olham o mundo do alto de sua sabedoria, acreditam-se superiores aos meros mortais, conservam um ar blasé no dia a dia, e insistem em patentear verdades universais. São os tipos mais insalubres do universo: fuja deles!
Mais uma categoria: os impostores. Esses mastigam com caninos afiados o conto de Lima Barreto para aplicá-lo na prática. Gritam aos quatro cantos que sabem javanês (ou filosofia, programação, psicologia, política, artes, marketing), mas só decoraram o alfabeto.
Conheci um homem que sabia javanês em Bauru. Diziam que ele sabia tudo sobre sua área de atuação, mas nunca consegui identificar sua contribuição nos resultados, sua assinatura. Nas poucas vezes em que estivemos juntos, ele se recusava a discutir qualquer tema relacionado ao seu trabalho. Dizia que isso era conduta de principiante. Sei que ele continua lecionando javanês por aí. Um dia, meu caro Lima, prometo desmascará-lo.

(*) Imagem que ilustra esse post: o escritor Lima Barreto (1881-1922)

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Historinha de terror

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Por Fernanda Villas Bôas

Pequeno esboço para uma história de terror: um homem chega em casa e arranca, sôfrego, a gravata e os sapatos, apanha uma cerveja na geladeira, liga a TV no canal de esportes e se ajeita na poltrona para agarrar o finalzinho do segundo tempo.
A bola rola na tela, os olhos dele também rolam. Para a porta da sala. Porque naquele momento, ele vê, entre o batente e o cabideiro, uma mulher. No primeiro instante, o homem pensa que aquela não é uma mulher comum. Usa um vestido longo, prende a gola com um grande camafeu, suspende os cabelos num coque, desnuda a testa, tem uma feição fora de moda.
Mas o mais espantoso é a expressão de assombro da mulher. Quando vê o homem, ela arregala os olhos muito claros, leva as mãos ao peito e solta um grito surdo. O homem também se assusta. Ele retesa o corpo, franze a testa, duvida dos olhos. Encara a mulher com um misto de inquietação e medo: ela parece fora do tempo, longe do mundo, muito distante de 2013. Paralisados, os dois se olham por cinco segundos ou nem isso. E, então, a mulher desaparece no ar.
O homem perde o equilíbrio, enjoa, escora-se na poltrona, já não ouve a TV, já não se lembra da cerveja. Está transfigurado, angustia-se com aquela estranha aparição: uma mulher do passado perdida no seu presente. É a casa, ele pensa.
A casa em que mora há dois meses é antiga. Ele vivia num apartamento perto da praia, mas optou pelo velho sobrado por causa do baixo aluguel. O homem é divorciado duas vezes, paga muita pensão, ganha menos do que gostaria.
A oportunidade apareceu nos classificados de um jornal. É um velho imóvel, com problemas de encanamento, rachaduras na parede e pintura vencida. Mas é espaçoso e ostenta um pequeno jardim. O homem tem pressa e é estressado, mas ainda se lembra dos jardins. Quer colocar os pés descalços na terra, quer cultivar qualquer coisa, quer molhar a grama com mangueira, quer adotar um cachorro.
A casa antiga tem fantasmas, ele pensa. E decide revirar o sótão. Encontra um quadro embolorado, uma cadeira quebrada, uma colcha sem desenho nem cor, e um armário esquecido. O homem abre o armário e vê uma caixa pesada de madeira, cheia de papéis velhos, porcelanas partidas, quilos de pó, pedaços de insetos, fotos perdidas. Sabia que encontraria a foto amarelada da mulher do passado. Só não contava com o diário.
É o diário de uma mulher do começo do século 20. Ela fala da saudade da filha que pouco vê, do desejo de voltar para casa, dos amores que nunca viveu. E fala da surpresa de ter encontrado um homem em sua sala, sem sapatos e sem gravata, com a testa franzida e o corpo retesado. A mulher quer sair da casa, teme as estranhas visões, suspeita de ruídos, não suporta a solidão. O homem fecha o diário em silêncio. Sente-se, mais do que nunca, um intruso no mundo.

(*) Imagem que ilustra esse post: Yes or No (1905), de Charles Dana Gibson, artista gráfico americano.

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Tupã é o deus dos índios… Oi?

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Por Fernanda Villas Bôas
Tupã é o deus dos índios, que falam língua tupi, vivem da caça e da pesca, dormem em redes e têm dois chefes: o da tribo, que é o cacique; e o religioso, que é o pajé (*). Se você cresceu ouvindo essas bobagens, tenho duas notícias: definitivamente, você não é o único, mas, por uma razão especial, não posso ampliar sua roda. Talvez por força do destino, talvez por força do acaso, aprendi muito cedo que estereótipos não são apenas instrumentos de metal utilizados em processos arcaicos de impressão, mas também ideias erradas sobre os povos nativos que viviam nessa falsa Índia quando os europeus aportaram por aqui. “Tupã” e “cacique” são exemplos desses conceitos furados.
Hoje, o tema diversidade social gera congressos e mesas-redondas, correto? Corretíssimo, mas é preciso ressalvar que há uma grande diferença entre discutir esse tema com pares iguais e vivê-lo no dia-a-dia com os protagonistas dessa tal diversidade. Tive esse prazer desde os 5 ou 6 anos, uma fase que, segundo Freud, representa o limiar para a formação da personalidade. Por graça e obra de Tupã, almocei, vi TV e andei a cavalo com os meus opostos, fossem eles camaiurás ou terenas, xavantes ou caingangues, bororos ou guaranis.
Se é uma vantagem ter nascido numa família de indigenistas? Com toda a certeza, sim. Não apenas porque livrar-se dos preconceitos é uma prerrogativa ao exercício do bom jornalismo, a profissão que me escolheu aos 17 anos, mas porque esse embate de contrastes proporciona uma experiência singular: enquanto você observa o outro com os olhos bem abertos, pode observar você mesmo com os olhos bem fechados, quer dizer, olhar para dentro. É o benefício da referência.
Anos 70 – Quando era criança e morava em São Paulo naqueles loucos anos 70, me habituei a conviver com os índios a qualquer hora do dia ou da noite. Meu pai, Álvaro, e meus tios, Cláudio e Orlando, trabalhavam na Funai, mas os alojamentos do órgão eram insuficientes para a grande demanda de visitantes das reservas, que viajavam à Capital para buscar soluções ou participar de eventos. O jeito era hospedá-los nas casas dos Villas Bôas, inclusive a minha, um sobradinho em Perdizes.
Como quase nada é mera coincidência, vivia com a minha família numa rua sem saída chamada “Caetés”, semanalmente povoada por índios de dezenas de etnias e com centenas de aparências, costumes e tradições desiguais. Havia os xinguanos botocudos, que despejavam arroz com coca-cola garganta abaixo (uma visão estupenda para uma paulistana da pré-escola como eu); havia mulheres tatuadas, adolescentes imberbes; e também havia as crianças indígenas, que, como todas as crianças do mundo, exploravam a vida e sorviam cada momento como se fosse o único.
Tacapes e bordunas – Um dia, descobri que experimentar essa diversidade era um privilégio meu. Ao contrário do que eu imaginava, as casas dos demais paulistanos não abrigavam índios, não tocavam música ritualística na vitrola nem eram decoradas com tacapes, cerâmicas, cocares ou bordunas. Nos dormitórios dos outros, os hóspedes eram insípidos – só os meus, era o que eu pensava, eram vivos de verdade.
Após mais de 500 anos, nos resta uma possibilidade: receber esses hóspedes ou transformá-los em anfitriões para promover o encontro, legitimar a propalada miscigenação, agora sem romantismo nem intolerância velada. “Antes tarde do que mais tarde”, aconselharia a paródia. Acredito que é melhor começar agora para compreender, finalmente, que olhar o índio é olhar para si mesmo, é dignificar essa profusa humanidade e lembrar, a quem possa interessar, que a diversidade só existe para tornar o mundo menos óbvio, menos vazio e bem mais real.

(* Tupã é deus só para os povos do tronco linguístico tupi; há 180 línguas e dialetos, e mais de 230 etnias no Brasil, segundo o Instituto Socioambiental/Povos Indígenas do Brasil; muitos grupos dedicam-se à agricultura; só os índios que conhecem tecelagem dormem em redes; os termos cacique e pajé, citados por etnológos do começo do século, são errôneos e imprecisos, já que cada grupo possui estruturas hierárquicas distintas e designações específicas para autoridades políticas e religiosas).

(**) Imagem que ilustra esse post: cerâmica Kaingang dos índios da reserva de Icatu, no município de Braúna. Foto de Su Stathopoulos.